domingo, dezembro 17, 2006

Dia-a-dia ou quotidiano?

Tenho plena consciência que criei este blog para fugir ao meu tipo de escrita "habitual" - triste, deprimente, sobre coisas que se repetem no dia-a-dia e para os quais não apresento qualquer tipo de solução.
Na verdade, são já raras as ocasiões em que me sinto assim - triste, deprimida - e muito menos aquelas em que penso sobre isso. Mas, ao que parece, não consigo fugir àquilo que sou eu. Ou, pelo menos, à forma como sei expressar as coisas.
Continuo a dizer que não estou triste. Nem deprimida. Sorrio bastante durante o dia, animo-me facilmente, faço várias coisas, dou passeios... Só me irrita um pouco as pessoas que ainda se encontram num determinado estado de onde eu me esforcei tanto por sair. E o problema é que muitas dessas pessoas são minhas amigas próximas e por causa desta minha irritação, não lhes consigo dar o devido apoio, nem estar lá para elas.
Para além disso, a minha constante atitude de "parvez" parece que está para durar. Ou seja, continuarei impávida e serena a assistir ao fim do mundo. Sou capaz de ficar horas em frente à televisão, deitada na cama, debaixo de água no chuveiro. Estática e muda. Raramente falo, o que se anda a tornar um problema (pelo menos cá em casa). E mesmo o contacto com as pessoas anda a ser cada vez mais reduzido, até vir ao computador me anda a custar.
No entanto, prometo que esta fase há-de passar, como todas as outras passaram. Provavelmente, isto serão ainda efeitos e consequências de outras fases anteriores. E prometo também que me esforçarei sempre para evitar que os meus sentimentos criem conflitos com os meus amigos.
Gosto muito de vocês, aqueles que estão do meu lado no dia-a-dia mesmo sem se aperceberem. Aqueles que me dão força e que, através de pequenos incentivos imperceptíveis, me abrem os olhos. Não sei o que seria de mim sem vocês.
Mas... Por hoje, só por hoje, acham que posso deitar a minha cabeça no vosso colo e chorar? Só por um bocadinho? Um instante?
Até a dor passar?
(P.S.: Parabéns Flor.)

domingo, dezembro 10, 2006

in http://restingthougths.blogspot.com/

- Porque és assim?
- Sou apenas eu.
- Porque és assim?
- Porque me fizeste assim.
- É então culpa minha?!
- Ensinaste-me a ser assim.
- Não percebi.
- Ensinaste-me a ter medo. Ensinaste-me a construir muros.
- Não digas disparates.
- Vês? Acabaste de me dar mais tijolos para o muro.

Conto de fadas

Era uma vez uma rapariga, inocente e encantadora, que sorria para a vida assim como a vida sorria para ela. Caminhava sem vacilar pelos terrenos mais ou menos árduos que se lhe apresentavam pela frente, sempre de mãos estendidas para aqueles que a rodeavam. Ajudava todos sem excepção, fazia da dor deles a sua. E, juntos, voltavam a ganhar forças e a caminhar em frente.
Sem se aperceber do passar do tempo, nem sequer na mudança de paisagem, alcançou um campo lindo, com erva verde que ondulava suavemente com a brisa do vento. No meio do campo, um castelo. E à porta, um rei com a sua coroa. Um rei vestido de negro.
Caminhou, ligeiramente insegura, em direcção ao homem e olharam-se longamente nos olhos. Ela acabara de entrar num conto de fadas e ele vivia num. Sem saber o que lhe esperava no futuro, a rapariga sentou-se ao lado do rei e falaram. Falaram durante horas. Havia qualquer coisa naquele ser, no olhar, na escuridão que o rodeava, que a encantava. Ele vivia num sonho e no entanto, havia uma contradição.
Sorriu. Sorriu e deu-lhe a mão. Ouviu-o, amparou-o, consolou-o. Abraçou-o. Mas foi só quando finalmente o beijou que uma dor agonizante atingiu o seu coração, manchando-o de preto. O seu sangue, antes vermelho, tornou-se preto também e corria por todo o seu corpo que se cobriu de negro. Os seus olhos, antes límpidos e brilhantes, raiaram uma escuridão que assustou o rei.
Olhou para ela. Voltou a olhar. Chorou. Gritou por ela. Mas nada.
Por detrás do negro que havia tomado conta do seu corpo, a rapariga chorava, gritava por ele. Pedia ajuda. Mas nada.
O rei levantou-se e estendeu-lhe a mão. Assim ficaram uma eternidade. Sem qualquer reacção por parte dela, um novo rei vestido de branco e olhar puro e brilhante virou costas, seguindo pelo prado verdejante.
E a rainha... Ficou sem rei, nem conto de fadas. Apenas um palácio e um campo verde. E aquela escuridão que a impedia de seguir em frente.